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  • Cleane Tavares de Souza

LUTO NA PANDEMIA

Vivemos tempos difíceis e desafiadores, são inúmeras perdas que chegaram sem avisar e sem que nos preparássemos. Antes de entrar no tema propriamente dito, quero esclarecer aqui o que é o luto.


O luto acontece quando há um rompimento de um vínculo, é um processo de readaptação e reorganização diante de uma perda. Pensando na nossa realidade atual, temos uma população mundial enlutada. Com a pandemia e o isolamento social, vivemos uma crise intensa de perdas. Pessoas perderam seus empregos, o contato físico com as pessoas que amam, etc. Muitas são as pessoas que perderam alguém, um ente querido para a covid-19. São variados os sentimentos que podem surgir na pessoa enlutada: sentimento de culpa, impotência, desejo de ir junto com quem morreu, vontade de ficar sozinho, choro constante, falta de apetite, tristeza profunda e sem querer fazer nada. Enfim, todos esses sentimentos são comuns em um processo de luto normal e saudável.

O luto pode se tornar um fator de risco para nossa saúde mental quando o processo não ocorre como deveria. Existe cinco tipos de luto que pode se tornar patológicos, são eles: Luto Adiado, quando a pessoa continua agindo como se nada tivesse acontecido; Luto Suspenso, quando há a negação da morte; Luto Não Autorizado, quando não há permissão para seu sofrimento; Luto Crônico, quando após muito tempo a pessoa ainda sofre com perda; e o Luto Traumático, quando a morte acontece de forma trágica e inesperada.



Bom, mas o seria a morte? A morte faz parte do desenvolvimento humano, ela é singular e subjetiva. Infelizmente, não somos educados para lidar com esse evento que é inevitável e inerente aos seres humanos. Portanto, essa temática se torna para alguns indivíduos algo inexistente e longe da realidade. Muitos vivem na ilusão do “para sempre”, acreditando que tudo é para sempre e nunca chegará ao fim.


Entretanto, a morte pode acontecer de forma esperada por meio do adoecimento ou de forma inesperada como em tragédias, desastres e suicídio. Ambas são lutos dolorosos, porém, na morte inesperada é mais difícil a elaboração e ressignificação da perda.


Todas essas perdas causam um grande desequilíbrio emocional, pessoas com algum transtorno mental pré estabelecido podem passar por um agravamento da doença e aquelas que não tinham nenhum diagnóstico podem inaugurar uma depressão ou uma ansiedade patológica, por exemplo.


O luto é processo natural e saudável, é necessário passar por ele. Não existe tempo exato de duração, esse processo é único e singular a cada pessoa, cada indivíduo vive o luto de forma e tempo distintos.


Meu objetivo aqui, é ressaltar a importância da validação do luto, seja ele pela morte simbólica – que é luto em vida, como o fim de um relacionamento e/ou perda de emprego, por exemplo – ou seja pela morte concreta, quando há a perda de alguém.


É culturalmente comum o luto não ser autorizado, ou seja, as pessoas próximas cobram do enlutado que ele fique bem e supere tudo rápido. São comuns frases como: “Você precisa ser forte”, “foi melhor assim”, “ele está em bom lugar”. Esse tipo de comentário não válida ou autoriza o sofrimento do enlutado.


Vale ressaltar ainda a importância de explicar para as crianças sobre a morte do ente querido e permitir que ela participe do velório. O ritual do velório simboliza a despedida, o fechamento do ciclo. Não só as crianças, mas todos que estão em sofrimento devido essa perda devem participar. O ritual é necessário para a elaboração do luto, pois nele é possível chorar, fazer homenagens e as mais variadas expressões de desabafos e despedida.


Sabendo da importância desse ritual para um luto saudável, como podemos lidar com as perdas e elaborar esse luto em tempos de covid-19?


É uma morte desamparada e solitária, sem ninguém para segurar a mão e dizer “descanse em paz”. O luto nesse cenário de pandemia tem grandes probabilidades de ser complicado e traumático, o enlutado irá necessitar de uma rede de apoio que autorize e valide seu sofrimento.


É possível realizar um ritual de despedida sem o corpo, por meio de missas virtuais, usar redes sociais para homenagear o ente querido, conversar com alguém sobre sua dor, essas são apenas algumas das possibilidades de despedida que podem ajudar na aceitação e elaboração da perda.


De qualquer forma, a terapia online é uma boa saída. Para isso, a Amar.Elo Saúde Mental será sempre cuidando além da tela.


Psicóloga Cleane Tavares de Souza – CRP 06/158028

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