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  • Cleidiane da Silva Cruz

A arte e a dinâmica grupal como caminho para a saúde mental

A arte toca emoções, aponta caminhos, favorece trajetórias e fomenta histórias. Ainda mais quando é utilizada em momentos de interação, como por exemplo, em um grupo. A arte presente na interação grupal é potente. Cria memórias lindas e, por muitas vezes, inesquecíveis. nos traz boas lembranças como: Uma dança com a família, o desenho com filhos, a música que marcou um momento da sua vida. Quem nunca sorriu ou chorou com um episódio de um filme?


Qualquer tipo interação que tem a Arte como ponte favorece o bem estar e promove saúde mental.


A arte pode ser ferramenta do grupo terapêutico, o que pode favorecer a sintonia do grupo, deixando os participantes do grupo mais a vontade para colocar suas questões.


Como afirma o psiquiatra brasileiro e estudioso do assunto, Luiz Carlos Osorio (2003), os grupos permitem uma observação ao vivo de todos os processos de interação social, constituindo-se em uma unidade experimental de referência para elaboração de hipóteses que possam posteriormente ser comparadas com encontros em outros grupos.


O grupo é potente em gerar novos assuntos, enquanto atinge o sujeito individualmente e também enquanto cria novas possibilidades em conjunto. O que pode gerar a ampliação do tema de um encontro para dois.


As atividades que são planejadas para um encontro, contudo, podem se estender, isso dependerá de como o grupo receberá a proposta. Há encontros que o que é oferecido não é visto ou realizado, pois a necessidade do grupo muda constantemente. E é nesse momento em que a Arte passa a ser fundamental para promover uma interação e nortear, mesmo que sutilmente, os caminhos que o grupo irá seguir!




E é por meio desta experiência que indivíduos têm a oportunidade de desenvolver potencialidades (como percepção, imaginação e sensibilidade) que podem alicerçar a consciência do seu lugar no mundo. (Brasil, 1997, p.32).


Nos encontros grupais promovidos no espaço terapêutico organizado por Nise, por exemplo, todas as atividades propostas envolvem Arte. E a partir disso nascem discussões, aparecem demandas e possíveis soluções encontradas pelo próprio grupo.


A formação de grupos é muitas vezes, erroneamente interpretada como um processo onde ocorre um reconhecimento de características comuns, e que esses aspectos semelhantes fazem com que o grupo se consolide. Tomando, assim, os aspectos parecidos como algo essencial. Contudo, na dinâmica do grupo percebe-se a discrepância dessa paradoxa consonância de identidade grupal e o sentido de como essa identidade se apresenta.


A identificação entre os membros do grupo e suas diferenças fomentam a harmonia desse grupo, o que em muitas vezes não demonstra sentido algum, e é a partir disso que os integrantes desse mesmo grupo se reconhecem, estabelecendo um vínculo e produzindo ativamente os contextos de suas relações.


A potência que da Arte produz no grupo e como a intervenção grupal pode facilitar processos de ressignificação valiosos para os pacientes em tratamento psicológico. A Arte aponta que a intervenção terapêutica sustenta o equilíbrio grupal.


Toda arte se caracteriza por um certo modo de organização em torno do vazio. Não creio que seja uma fórmula vã, malgrado sua generalidade, para orientar aqueles que se interessam pela elucidação dos problemas da arte, e penso dispor de meios para ilustrá-lo de maneira múltipla e muito sensível (Lacan 1959-60/1997, p.162).


Existem várias formas de narrativas artísticas: músicas, poemas, filmes, pinturas, etc. E podemos presentificar situações importantes da História através da arte, ao mesmo tempo que podemos perceber também todas as riquezas culturais das tradições esquecidas em nossa dura rotina contemporânea.


Quando o profissional que trabalha com saúde mental acredita no potencial artístico do paciente, realizando atividades e indicando caminhos que apontem para seu desejo criativo, ele favorece a aproximação de uma realidade mais coletiva com sua própria história de vida.


A Arte como ferramenta terapêutica dentro de um grupo, une e promove cura. É mais suportável a descrição e uma realidade difícil através da Arte. E, também, é só presenciando momentos difíceis que se faz um trabalho artístico verdadeiro e que toca corações. Os momentos de dores podem servir de inspiração a um trabalho artístico. Assim como já dizia Fernando Pessoa, “a Arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos”.


Portanto, a Arte que surge simbolicamente na narrativa da própria vida possibilita uma travessia, faz ressurgir uma história. A música, dança, pintura, escritos, fotografia, mídias e filmes criam um repertório criativo de apreensão subjetiva.


A junção da Psicologia e da Arte é satisfatória e gera história! E é exatamente essa história que constrói de maneira mais saudável novos ordenamentos sociais. A Psicologia, assim como a Arte, quebra os estigmas, rompe as barreiras, ressalta o belo, derruba os preconceitos e promove a saúde. Arte e Psicologia tem tudo a ver, e uma tem muito a contar com a outra.


Ou, como já dizia Nise da Silveira, psiquiatra brasileira reconhecida mundialmente como tendo revolucionado o tratamento mental no Brasil: “É preciso não se contentar com a superfície”.


Cleidiane da Silva Cruz - CRP: 11/15856


REFERÊNCIAS

BARROS, Regina Benevides de Grupo: a afirmação de um simulacro / Regina Benevides de Barros. – 3ª edição 2013 – Porto Alegre: Sulina/Editora da UFRGS, 2009 – (Coleção Cartografias) 350 p

LACAN, J. (1959-60/1997). Seminário livro VII: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

NASIO, Juan - David (1942). 9 Lições sobre Arte e Psicanálise, Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

OSORIO, Luiz Carlos. Psicologia grupal: uma nova disciplina para o advento de uma era / Luís Carlos Osorio - Porto Alegre: Artmed, 2003.

PESSOA, Fernando, 1888-1935. Livro do Desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda livros na cidade de Lisboa / Fernando Pessoa: organização Richard Zenith _ São Paulo: companhia das letras 1999.

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