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  • Raquel Moura da Conceição

Você sabe o que é uma crise?

Eu não conheço você que lê agora esse blog. Mas sei que, provavelmente, já deve ter passado por um momento difícil durante a sua vida! Seja esse momento a perda de um emprego, término de relacionamento, mudança de cidade ou mesmo a tentativa de se adaptar a uma nova realidade… Estou certa?


Estas são situações frequentes e comuns na vida da maioria das pessoas… e elas também se caracterizam por, geralmente, causar uma paralisação na vida das pessoas, fazendo surgir novas formas de enfrentamento. A esses tipos de situações, damos o nome de “crise”.


A etimologia da palavra crise vem do grego “krisis”, que significa decisão. A crise pode ser, de fato, uma situação de oportunidade ou perigo – a depender da forma como lidamos com ela. Vários autores conceituam uma crise como um período de extrema dificuldade, na qual o sujeito se sente fragilizado e impotente para lidar com a situação.


Ela inclui ao sujeito uma ameaça de perda de algo significativo, como por exemplo um emprego ou uma pessoa; e gera vários riscos também, como insegurança, inadequação e redução das formas de enfrentamento.




Atualmente, percebemos que há vários tipos de crises que ocorrem frequentemente na nossa sociedade, sejam elas políticas, sociais ou ambientais, dentre outras. A crise da covid-19 é o maior exemplo atual, já que envolve inúmeras perdas, não só de vidas, mas também do “mundo presumido”, ou seja, o mundo da forma que nós conhecíamos anteriormente.


Embora a maioria das crises seja acompanhada de sentimentos negativos, como angústia, tristeza e ansiedade, nem toda crise se torna obrigatoriamente um perigo!


Ela pode ser também uma oportunidade de mudança, gerando solução para novos problemas. Grandes catástrofes, como as guerras mundiais ou a grande crise financeira de 1929, foram exemplos de situações que trouxeram inúmeras perdas e muito sofrimento físico, psicológico e social. Porém, foram também acontecimentos que geraram novos conhecimentos em várias áreas e proporcionaram novos tipos de enfrentamento que se faziam necessário.


A ciência psicológica, por exemplo, foi uma área das ciências humanas que cresceu muito a partir dessas crises mundiais, exatamente porque ampliou a visão que tínhamos como sociedade acerca do ser humano e, principalmente, da mente humana – e passou a estudar novos aspectos que, anteriormente, não eram observados, porque nunca havia tido ainda necessidade ou interesse.


Surgiram estudos inéditos sobre luto, enfrentamento, estresse pós-traumático e sentido da vida – e esses são apenas alguns exemplos de áreas que cresceram exponencialmente após as grandes catástrofes e momentos de dificuldade citados.


Compreender o que significa passar por uma crise permite, muitas vezes, ter um novo olhar sobre ela – e a como se preparar para enfrentá-la. Durante toda a nossa vida, iremos inevitavelmente passar por períodos críticos, seja no nosso desenvolvimento como pessoa ou frente a situações que acometem subitamente a nossa trajetória.


As grandes passagens da vida, como da infância para a adolescência, desta fase para a vida adulta e depois para a velhice, por si só já contribuem para o surgimento de vários períodos de desequilíbrio emocional. No entanto, o ser humano é um ser altamente capaz de mudar, de se autorregular e que consegue enfrentar muito bem essas situações por natureza.


Moffat (1981) afirma que a crise é um momento de paralisação da continuidade da vida, que gera sensação de confusão e solidão. É como o surgimento de uma nova realidade, que exige novas formas de adaptação e pode gerar crescimento ou prejuízos.


O autor James Worth (1985) traz também três características para a crise. Segundo ele, elas são dilacerantes, inevitáveis e temporárias. São dilacerantes pois causam um grande impacto, seja esse impacto físico (no sono ou no apetite, por exemplo) ou psicológico. São inevitáveis pois sempre irão acontecer, não podem ser adiadas, mas sim atravessadas. E são temporárias, pois ocupam um período breve na vida da pessoa.


Por fim, Simon (1989), o autor que propõe uma teoria da crise, nos traz uma classificação etiológica para a crise, explicando de onde origina a situação. Ele afirma que toda crise é uma situação nova e potencialmente transformadora, sendo sempre experiências singulares.


O autor classifica crise por perda e por aquisição. Por perda seria àquelas cujo há uma redução do universo pessoal (constituído por toda a pessoa e os objetos que a cercam) e por aquisição, àquelas em que há um aumento do universo pessoal.


Desse modo, hoje, já sabe-se que uma crise pode gerar impactos na saúde mental das pessoas, necessitando de um olhar atento a esse processo. O primeiro grande passo para enfrentar uma crise é reconhecer e aceitar a sua chegada. Reconhecer as emoções envolvidas e lidar com os sentimentos predominantes que ela traz, bem como incentivar o interesse pelo universo pessoal, podem ser caminhos de ajuda para enfrentar períodos críticos.


A ajuda especializada é necessária quando há uma paralisação que impeça o retorno à rotina da pessoa e/ou um sofrimento muito intenso e significativo. Não podemos esquecer que todo ser humano é capaz de lidar com as crises da vida, tendo liberdade e responsabilidade para ter uma atitude perante a essas dificuldades. Enxergar um sentido por detrás de períodos críticos pode ser uma ocasião de enfrentamento e amadurecimento humano.


Por isso, quando você perceber um momento de crise, lembre-se da frase célebre de Nietzsche, filósofo alemão, que dizia que: “Quem tem um porquê, enfrenta qualquer como! Quando a crise chegar, não se desespere. Busque seus porquês. Enfrente com cabeça erguida a nova situação apresentada e, se perceber que está difícil seguir só, peça ajuda.

Você tem com quem contar! Conte sempre conosco.


Raquel Moura da Conceição – CRP 11/13589



REFERÊNCIAS TEÓRICAS


HOLANDA, T. C., SAMPAIO. P.P. Psicoterapia breve focal: técnicas e casos clínicos. Fortaleza: Universidade de Fortaleza, 2012, 354 p.

MOFFAT, A. Terapia da crise: teoria temporal do psiquismo. São Paulo: Cortez Editora, 1987.

SIMON, R. Psicologia clínica preventiva: novos fundamentos. São Paulo: EPU, 1989.

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